terça-feira, 7 de julho de 2015

'Quem pede redução não terá seu filho torturado'

Deize Carvalho, que perdeu o filho, Andreu, morto numa unidade do Degase, é contra a redução da maioridade penal e diz que 'o sistema não socializa'. Foto: Fabio Motta/Estadão

“Meu nome é Deize Carvalho. Tenho 44 anos, sou moradora da comunidade do Cantagalo e meu filho foi assassinado no sistema socioeducativo em 1.º de janeiro de 2008. Rotulo o sistema do Degase como ‘sociotortura’. Sou contra a redução da maioridade penal porque aqueles que a pedem não vão ter seus filhos torturados, com pescoço quebrado e mandíbula deslocada.

Não vão ter seus filhos torturados e com o corpo perfurado por cabos de vassoura. Esses a favor da redução são aqueles que não vão ter seus filhos tratados como objeto, lixo, escória. Os jovens que cometem atos infracionais devem pagar, sim, dentro da lei. E não de forma violenta. O sistema não ressocializa ninguém. Vejo o Degase como senzala, navio negreiro. Negros e pobres é que vão parar nesse sistema. 

Jovens cometem atos infracionais porque o Estado marginaliza nossos filhos. Porque quando um governador diz que as comunidades são fábricas de produzir marginais, estão marginalizando não só nossos filhos, mas nossas vidas. Não fui fábrica de produzir marginal. Marginal é o Estado, quando não dá educação, quando abandona mães vítimas dessa violência, coloca nossos filhos em condições desumanas dentro do sistema prisional. Quem vai ser beneficiado com a privatização dos presídios? São os empresários que têm pacto com os políticos. 

Sou contra a redução porque sou a favor da vida e da dignidade humana. Quantos jovens mais vão morrer? Meu filho não foi o primeiro nem o último. Obrigação têm nossos filhos de estar lá. Mas quando jovem de classe média pratica furto ou tráfico é retratado de forma diferente. Hipocrisia. 

Quem tem interesse na manobra política do (presidente da Câmara) Eduardo Cunha? Olha, Cunha, acho que você não é pai, não é ser humano, não deve ter sentimentos. Esse Cunha é capitão do mato que não usa mais as chibatas, mas quer usar a palavra do Estado para torturar.”

FONTE: Estadão

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