sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Fut-Baal – A Relação entre Futebol e Religião

Em tese, religião, política e futebol não se discutem. A razão disso tudo é que cada um tem o seu jeito de pensar e de ser. Leonardo Boff disse que todo ponto de vista parte de um ponto, e neste texto queremos partir do ponto de vista de quem vê na religião um delineador de sentidos e formas concretas e abstratas. Paul Tillich trabalhou de maneira consistente a relação entre a religião e cultura naquilo que ele mesmo chamou de método da correlação.




As origens da paixão nacional pelo futebol

Nenhum outro esporte mobiliza os brasileiros tanto quanto o futebol, já oficializado como paixão nacional. Este envolvimento sempre intrigou o historiador Leonardo Affonso de Miranda Pereira, professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Afinal, quais foram os fatores que fizeram com que um jogo criado na Inglaterra se tornasse tão popular no Brasil? Pereira respondeu esta questão em sua tese de doutorado, defendida em 1998, que virou o livro "Footballmania. Uma história social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938)". Depois de quatro anos de pesquisa, Pereira identificou pontos que fazem do futebol um esporte especial para o brasileiro: 




 1) Sempre foi popular - Pereira derruba a tese de que, nos primeiros anos do século passado, o futebol era um esporte praticado apenas pela elite. A descoberta, surpreendente, foi feita através da pesquisa em documentos policiais. Isso mesmo. Na época era obrigatório comunicar à polícia o desejo de se criar uma agremiação. "Identifiquei dezenas de pequenos clubes, formados em sua maioria por trabalhadores, que estavam ausentes da história normalmente contada sobre futebol", conta o professor. A explicação desta popularização está na facilidade de se praticar. "Claro que o modo exato de se jogar - com campo de tamanho correto, grama à determinada altura, bola com peso ideal - o torna um esporte caro. Mas os clubes pequenos jogavam como podiam", relata Pereira. O historiador lembra que os esportes em voga na época (remo e corrida de cavalos) eram excludentes pois exigiam dinheiro e estrutura. "Na rua, até uma laranja servia como bola para quem quisesse jogar futebol. E assim, era no qual os torcedores também eram jogadores".

2) Associado à diversão - Outro dado curioso da pesquisa de Pereira é a ligação de futebol com diversão. Enquanto nos clubes de elite, como Flamengo e Fluminense, a preocupação da prática esportiva estava ligada à valorização da educação física como complemento de formação (a idéia de "mente sã em corpo são" começa a ganhar força), nas agremiações populares era comum misturar carnaval e futebol. "Um clube cujo nome particularmente gostoso chamava-se Sociedade Carnavalesca Miséria e Fome Futebol Clube", comenta Pereira. "Nestes locais esta união não parecia uma contradição, pois futebol e carnaval eram vistos como maneiras parecidas de diversão".

3) Representação nacional - Em 1934, pela primeira vez, um atleta negro, Leônidas Silva, é convocado para jogar uma Copa do Mundo. Esta "permissão" da elite, que até então mantinha negros e afro-descendentes longe dos gramados oficiais, nasce de uma mudança de mentalidade com relação à formação cultural híbrida do povo brasileiro: a mistura de raças passa a ser vista não mais como um problema e um fardo, mas sim como uma vantagem. O auge dessa mudança se dá com a publicação, em 1933, de "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, que defende essa positividade. "É justamente por ocasião da Copa de 1938 que o sentimento nacional se consolida em torno do futebol. Algumas imagens também se cristalizam em relação a ídolos negros, como o próprio Leônidas da Silva e também Domingos da Guia. Ou seja, o conjunto da população passa a se identificar com uma seleção mestiça", afirma Pereira.

4) Convicção de que o Brasil joga "o melhor futebol do mundo" - É em 1938 que se enraíza no país o sentimento de que brasileiro joga futebol de uma maneira diferente. "Acredita-se que o Brasil tem ginga, tem o futebol malandro, que valoriza o drible e que o diferencia de todos os outros países", diz o pesquisador. "Esta crença ainda existe. Na última copa, o Brasil ficou em segundo lugar na competição - colocação que seria motivo de festa para qualquer outro país - mas aqui sentimos como uma tragédia nacional".

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